14 Maio 2017

Madrecita

Publicado em Crônicas

 

A imagem pode conter: 1 pessoa, sentado, filho e atividades ao ar livre

 

Ela sempre foi uma fortaleza, com ela ao meu lado os problemas desapareciam, ia tomar satisfação com a professora impaciente; com a mãe, da coleguinha abusada; com quem quer que fosse. Ai de quem ousasse implicar com os filhos dela. Era uma Leoa.

Acho que meu jeito combativo e forte herdei dela, mais do que a genética foi o modelo e o estímulo, desde cedo me empurrava para desafios literalmente maiores - como quando bati e uma menina 5 anos mais velha e bem maior que eu e fui recebida em casa como heroína- nesta época minha frase favorita quando chegava em casa era contar para ela: “Hoje caguei um guri de a pau”, e detalhava a proeza, sob o olhar cúmplice de aprovação.

 Também comprava as brigas do meu irmão mais velho, que ela dizia que era um plasta (mole)  os acertos de contas com os moleques que ousavam desafiá-lo eram comigo.

 Ela vinha de uma fronteira insípida e fria, do sul do Brasil, na divisa com o Uruguai, onde só os fortes sobrevivem, sempre lutou contra o clima as adversidades e a miséria, criando os três filhos, praticamente sozinha.

O café da manhã era o famoso “engrossado” um café preto com farinha de mandioca que enganava a fome. Quando a naba (pobreza) nos pegava ela especializava-se em comida campeira, comprava a tripa gorda de gado, limpava bem, fervia e depois aquilo virava uma especiaria, e ela não perdia a piada: “Enquanto os outros compram a carne por quilo, eu compro por metro”, dizia.

Assim passaram-se os anos, crescemos todos com muito rigor e chineladas voadeiras ou varadas na bunda e principalmente nas pernas, para deixar marcas:” Se perguntarem conta o que tu fez, malcriada”. Hoje adulta quando reclamo das “pisas de laço” ela responde: “Tá reclamando do quê? Tu te criou e tá aí bem gorda e bem bunduda, conclui.

Uma das lembranças mais marcantes da minha infância foi quando a acompanhei  em um furto internacional das ossadas de um morto. Explico. Meu avô materno morreu e foi enterrado no Uruguai, minha avó no Brasil e minha mãe havia prometido enterra-los juntos. Para ela promessas eram sagradas e os mortos também, - Vem daí minha primeira lição de espiritualidade-  Depois de tentar o translado pela burocracia das Embaixadas brasileiras e uruguaias,  ela não teve dúvidas, me pegou pela mão e lá fomos nós buscar os ossos do Tata(papai) no cemitério uruguaio.

Chegando lá ela contou a triste história dos defuntos separados e deu alguns “pesos” para o coveiro, que através de uma piscadela sinalizou para que fossemos rápidas, enquanto o administrador do cemitério estava fora. Recolhemos os ossos em uma grande sacola de papelão e silenciosamente entramos em um ônibus lotado, daqueles de dois andares que circulavam em Rivera, no Uruguai, ao som da voz do cobrador que dizia: “Um pasito para frente dale”, ela sussurrou aos meus ouvidos: “Se soubessem o que trago dentro da sacola, sairíam todos correndo”.  Em casa, nesta noite tive meu primeiro contato com sua religiosidade. Ela acendeu uma vela, chorou, fez muitas orações  e passou a noite velando o pai morto, até enterrá-lo na manhã seguinte ao lado da Vovó Amália como havia prometido.

Neste dia, sem saber, recebia minha primeira aula prática de Filosofia, ela agira igual à heroína grega  Antígona que desafiou Creonte ao enterrar o corpo do irmão morto Polinices, alegando que as leis divinas são superiores ás leis humanas.

Nos últimos anos cada vez que volto prá casa a encontro um pouco menor, hoje aos 87 anos parece que ela encolheu. Não encontro mais aquela voz altiva de índia charrua que se espalhava por toda casa. Os cabelos embranquecidos, os bracinhos finos, onde as veias se espalham como tatuagens e as rugas vão ocupando todas as dobras do corpo.

 Agora ela caiu, quebrou o fêmur e como ela fazia em meus primeiros anos de vida a estou ensinando a andar. Passo a passo, como uma dança. Para andar da sala para o quarto é como se percorrêssemos um campo de futebol e ela chega na cama ofegante e cansada.

Os olhos opacos e já sem brilho ficam perdidos no infinito das lembranças e agora ela fala mais com os mortos do que com os vivos. Nos chama, a mim e minha irmã pelo nome das tias já falecidas, diz que está cansada da vida e quer morrer.

 Envelhecer é muito triste. É como a chama de uma lamparina se apagando lentamente, sem que haja nada que possamos fazer. Olho para ela e não a reconheço mais. Cadê aquela guerreira que me ensinou a lutar? Mas pensando bem, continua ali, neste fio tênue com que se agarra a vida, e a cada novo passo que ela dá em direção a porta, é um sinal de força, de quem não desistiu da vida e ainda quer lutar. Força Dona Zilda. Adelante, más um pasito.

04 Abril 2017

Até que a vida os separe

Publicado em Crônicas

 

O filme de amor termina com a clássica frase: Eles viveram felizes para sempre! Fade-Out e sobem os créditos com a ficha técnica do elenco e realizadores. Na vida real sabemos que as coisas não acontecem bem assim. Em que momento ele começou a achar suas piadas, antes tão fofas, sem graça? Quando foi que ele passou a fazer aquelas críticas ácidas sobre você estar com sobrepeso. Quando você se tornou essa mulher invisível. Pode até colocar os barangandãs de Carmem Miranda que ele não irá notar. Distraído não percebe mais o corte de cabelo, a roupa nova, nem a cirurgia plástica no nariz.

Quando foi que o desencanto começou a escorrer pelas paredes do quarto do casal perfeito? Até chegar ao extremo em que o amor de sua vida se transforma naquela pessoa sovina, ranzinza, física ou intelectualmente desinteressante. Onde foi que erramos, nesse amor que precisa ser alimentado todo o dia? Como uma planta para não morrer,  ou  seria o amor uma utopia  que não foi feita para durar?

Afinal nem tudo são flores no reino do amor. Que a paixão acaba todos sabemos, aquele olho no olho, o suspirar acordado, fazer poemas para a pessoa amada e acreditar que a vida não tem nenhum sentido sem ela. Lindo não é?  Aí casamos. Tudo ainda são flores na lua-de-mel do amor perfeito. A felicidade concretizada em uma praia caribenha - só você e seu amado e um mar de amor e ternura. Clicks que eternizam o momento para o álbum de fotografias.

A viagem acaba e voltamos da lua-de-mel, apaixonados, aí começa a convivência com o outro, seremos apresentados ao lado escuro da força, todas as verdades que não foram ditas durante o namoro aparecem. Você começa a perceber que nem sempre ele é tão romântico.  Meu Deus do céu, ás vezes ela é chata demais! No inicio são pequenas diferenças, gosto de filmes por exemplo. Ele adora os filmes de terror, ela os odeia. Ele, se não morrerem 100 pessoas no primeiro minuto, considera um filme sem ação, monótono. Ela se delicia com romances açucarados do tipo “O outono da minha melancolia”. Ela gosta de passeios no shopping, ele de pescaria ou do semanal futebol com os amigos, que será um ponto de discórdia vida a fora.

E aí o que acontece? Vamos moldando nossos gostos e desejos para atender o companheiro (companheira) e não perder o amor. Aquele amor de contos de fadas, tão duramente conquistado. Aturamos os insuportáveis almoços de domingo, com as críticas veladas da sogra e as indiretas de que você não é uma boa esposa e não cuida bem do filhinho dela. Com as cunhadas elogiando a antiga namorada dele, que a família adorava. Ou os sobrinhos chatos perguntando sua idade, claro, devem ter ouvidos dos pais que você é  muito nova ou velha demais para ele. Agora o mais irritante de tudo é a postura dele, absolutamente confortável nesse ambiente hostil, contando piadas, lembrando as viagens e as alegrias de quando eram crianças e do quanto à família dele é perfeita. Ai de você se fizer alguma crítica, suspirar desconforto  ou tentar marcar outro programa, é bom lembrar que a família do outro cônjuge normalmente será excluída-pelas mesmas razões.

A experiência da coabitação talvez seja a grande responsável pela dissolução do amor, ou seja, aquele sonho de viver juntos,  dividir tudo, como diz a música: “Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê”. Pura inspiração poética ilusória, aqueles mesmos seres apaixonados que queriam estabelecer uma relação duradoura ou uma paixão eterna, sucumbem ao desencanto nos primeiros anos de casados, estão aí as altas taxas de divórcio comprovando isso.

Oque aconteceu então ela se questiona? Como foi que meu príncipe virou um sapo? Tenho dedo podre para homens?  Será que todos estes “defeitinhos” estavam ali desde o início e você não os viu? Ora, era evidente, que ele seria um eterno filhinho da mamãe.

Onde foi que eu errei? A mulher tende sempre a culpar-se. Onde foi que falhei para que ele fosse procurar outra? Oque aconteceu com o sexo ótimo e a sintonia de almas? Onde foram parar aqueles dias felizes, quando visitávamos estrelas sem sair do chão? Quando olho no olho juramos amor eterno?

O tempo é cruel e mata qualquer paixão. Mais do que o tempo, a convivência talvez seja a maior responsável pelo fim do amor. Ou seja, dois indivíduos, com hábitos, criações e costumes diferentes, passarão a conviver para o resto da vida em um ambiente fechado, confortável é verdade, com uma bela decoração, mas quase uma prisão sem grades.

“O lar doce lar”  que exigirá dos cônjuges uma dose alta de tolerância, muita flexibilidade e uma imensa capacidade de adaptação. Ou seja, haja saco! Como enfrentar as pequenas implicâncias diárias. De novo você deixou fiapos de barba na pia? Não levantou a tampa da privada para urinar? Não aguento mais encontrar esta pia cheia de louça todos os dias! Helo darling! Os pratos não são autolaváveis! Sem falar naquele olhar crítico de soslaio.

Em que momento a voz dele que soava como música a  seus ouvidos se tornou irritante ou pesada?  E ao ouvi-lo a vontade que vem é a de tapar os ouvidos como criança, sair cantarolando Lá,lá,lá, lá.....

 É chegada a hora de tomar coragem, acordar do pesadelo que se transformou aquele “Conto de Fadas” , separar, sair em busca de um novo parceiro, procurar conselhos religiosos ou terapia de casal, tudo para reacender a antiga chama, ou no melhor dos casos, evitar lesões corporais.

E lá vamos nós e nosso amado para “terapia de casal” onde ambos irão desfiar para o terapeuta um rosário de lamentações, do que foi dito e ofendeu, do que sequer foi intuído, mas machucou. Tornamo-nos um poço de queixas e lamentações:  Você perdeu meu  Elepê do “The police”! Corrigiu minha pronuncia de Inglês, acintosamente, na frente de amigos!  Ou aquele raso conhecimento filosófico: Não é Descartes, se fala Decartes! A tah!

Com o terapeuta começa uma nova fase, depois de socar muitas almofadas simbolizando o parceiro, para expirar nossas mágoas entranhadas na alma, seremos adestrados para a convivência a dois. Teremos que assoprar a fogueira apagada da paixão e com a mínima fagulha que restar reacender o desejo adormecido.  

Faremos questionários de Controle Emocional toda vez que subir aquela vontade de escalpelo. Nessa fase, os livros de autoajuda e as meditações também ajudam. Centenas de Títulos estão disponíveis nas livrarias e na internet, que vão de “Redescubra o amor”, “Como manter um casamento feliz” ; “O Segredo do Sucesso nas Relações Afetivas”; “Como deixar seu marido louco por você”......

Outros profissionais, muito procurados nessa fase, são os chamados consultores sexuais. O vídeo sempre começa com o palestrante mostrando como foi infeliz no casamento, até que um dia, descobriu a fórmula da felicidade. Por modestos 200 reais - o que significa essa migalha, para manter seu casamento feliz? – Será revelada a fórmula mágica do casamento feliz. Com dicas de como apimentar a relação.

A primeira delas: Torne-se uma mulher sensual! Como se você esta se sentindo uma morta-viva. Renove seu estoque de calcinhas. Treine massagens estimulantes e também faça aula de pompoar para deixar sua vagina mais apertada e para ele descobrir a “gueixa” que ainda existe em você.

Pensou que era fácil? Não, você terá que trabalhar sua relação. Reconstruir o que foi destruído ao longo dos anos, trocar a crítica pelo elogio. Em vez do de novo largou a toalha molhada no chão, pelo, “Meu bem você está com uma áurea tão angelical hoje!”. Cuidado: Devagar com o andor, o exagero pode parecer cinismo.

Outro conselho é redescobrir coisas para fazer juntos: Abraçar, beijar, dar as mãos, dançar. Até aí tudo bem, agora lavar a louça, limpar a casa, levar as crianças para o playground, aí já é demais. E assim permanecemos por anos em terapias de casal, aprendendo técnicas de convivência amorosa e é claro que nunca mais conseguiremos reascender a paixão daquela época do namoro, quando comíamos sushis a luz de velas, com olhar de puro encantamento. Hoje observando o presente parece que foi em outra encarnação.

Mas aprendemos que o amor deve durar para sempre, e se o nosso acabar antes nos sentiremos incompetentes e culpadas, o erro foi nosso, nós e que não soubemos preservá-lo.

 E o que fazer quando nosso marido já não nos dirige galanteios e olha com olhar  encantado a namorada do melhor amigo; a mulher do colega de trabalho e até aquela cantora gorda, que você acha um horror. E você se sentindo, tão pálida, com seios flácidos pelos longos anos de amamentação, tão sem brilho, tão sem sal. Ou seja, nossa expectativa  de que o romance e a atração sexual persistiriam por toda a vida mostrou-se uma ilusão.

Ela vai para a Academia, faz banho de creme nos cabelos, aplica botox semestralmente, mente a idade e desperta olhares de desejo, onde o marido, por mais que esforce, não vê mais nada. Ele lá, barrigudo, comendo pipoca, atirado no sofá da sala. Não há libido que resista.

Mas otimistas, acreditamos na utopia do amor, e nos embrenhamos nessa relação mal sucedida que apostamos que duraria uma vida e faremos “de tudo” para durar, mas felicidade? Ah esta ficou a anos luz distante de nós. Ficou no tempo em que fazíamos brindes à luz de velas, quando o outro era tudo o que queríamos da vida.

Quando juramos fidelidade e  amor eterno em frente ao altar: - “Prometo ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe”. Não percebemos no juramento fatídico que quem vai nos separar não será a morte, mas a vida - a rotina de uma vida em comum. O juramento correto seria: Até que a vida nos separe! E seguiremos sozinhos, procurando de novo a alma gêmea, o par perfeito e repetindo sempre a mesma ilusão, de manter um amor eterno, quando o amor tem prazo de validade e pode acabar quando menos esperamos.

07 Janeiro 2017

Conselho

Publicado em Crônicas

Escreve uma amiga cincoentona na internet: Estou apaixonada. Oque faço?

Antes de responder coloco-me a garimpar lembranças deste sentimento que surge inesperadamente, em apenas um olhar, um frase distraída, um gesto de atenção um pouco maior e toma conta da gente como se não houvesse mais nada a não ser o desejo de estar perto e de respirar o mesmo ar da pessoa amada.

Os seres apaixonados ocupam o Olimpo e conversam com deuses, deitam-se no colo de Afrodite que os encoraja a seguir em frente e vivenciar este amor, mesmo sabendo de toda a dor que poderá causar, nada importa. Paixão é sinal de vida.

De repente, a pessoa mais sensata, se encontra como uma criança, insegura e perdida, medindo as palavras, repetindo diálogos imaginários, mas quando encontra o ser amado, a conversa ensaiada se esvai, um rubor lhe cobre o rosto e ela fica ali frágil e insegura como se fosse desmoronar.

O amor também não respeita idade, ela chega dos 20 aos 70, e sempre trazendo vida nova a seus eleitos. Os olhos brilham, a pele fica mais bonita, os pássaros cantam e a esperança se renova. O impossível está logo ali, ao alcance da mão, no dobrar da primeira esquina.

Ao acordar a imagem querida surge como um out door, em nossa mente, então, passeamos por seu corpo cálido, nos perdemos em seu olhar acolhedor, nos perdemos em seu sorriso. Nada é mais importante para nós do que o desejo de encontra-lo, de ouvir de novo sua voz- que vez por outra é ouvida - também em sonhos,  e supremo prazer, tocar de leve sua pele, para sentir um arrepio de sentimentos inoportunos, que nos invadem,  e ficamos ali paralisados, como se admirássemos uma obra de arte.

Apaixonados, nós queremos tudo, envolver o outro em nosso amor, ouvir histórias, contar estrelas, andar de mãos dadas na praia. Queremos fazer parte de sua vida, conhecer seus amigos, seus planos e sonhos e compartilhar de todos eles.

Na verdade, oque buscamos é a plenitude desse amor, o êxtase desse encontro que tanto impacta nossa vida e esse sentimento do divino habitando em nós.  A partir de agora só perto da pessoa amada nos sentiremos completos e a vida passa a ter um novo sentido para nós.

Mas minha amiga querida e se este louco amor não for correspondido? Então, surge a dor, vamos do céu ao inferno em segundos, todas as coisas carecem de sentido e nos tornamos tristes, pobres e totalmente vulneráveis.

Dói demais ser metade para quem sonhou ser inteiro e como uma criança abandonada, só nos resta recolher os cacos deste sentimento imenso, despedaçado aos nossos pés.  A sensação de não ser mais nada, toma conta desta ferida aberta, nesta criancinha que perdeu “o brinquedo mais querido” e sozinha na floresta não acha o caminho de casa.

É hora, então, com arrastados passos de quem perdeu, fazer o caminho de volta para dentro de si mesmo.  E de cabeça erguida, com orgulho dos loucos e sonhadores colocar essa “paixão” numa estante bem alta, como a lembrança de um sonho bom, que vez por outra você poderá recordar.

Se estiver disposta a tudo isto, "miga louca",  siga em frente em sua paixão. Caso contrário, ainda está em tempo, feche a porta de seu coração e não ame. Amar dói demais.